Pesquisadores da Stony Brook University, em Nova York, identificaram níveis significativamente elevados de uma proteína chamada tau no sangue de pessoas que desenvolveram sintomas persistentes após a infecção por Covid-19, condição conhecida como Covid longa.
A proteína tau está intimamente associada a doenças neurodegenerativas, especialmente a doença de Alzheimer. Quando se acumula de forma anormal, ela forma emaranhados dentro dos neurônios, prejudicando a comunicação entre as células cerebrais e contribuindo para perda de memória e declínio cognitivo progressivo.
O que o estudo observou
O estudo, publicado na revista científica eBioMedicine, analisou amostras de sangue de 454 pessoas. Metade dos participantes relatava dificuldades cognitivas após a infecção por Covid-19, enquanto o restante fazia parte de um grupo controle, composto por indivíduos que nunca tiveram Covid ou que se recuperaram sem sintomas persistentes.
Entre os participantes com Covid longa, 59% apresentaram aumento dos níveis de tau no sangue em comparação com medidas feitas antes da infecção. Esse aumento não foi observado no grupo controle.
Segundo os autores, a presença elevada de tau no sangue é considerada um biomarcador de dano cerebral duradouro, o que levanta preocupações sobre possíveis efeitos neurológicos de longo prazo associados à Covid longa.
Por que isso importa
O Dr. Benjamin Luft, especialista em doenças infecciosas e autor principal do estudo, destaca que os impactos da Covid-19 podem se manifestar anos após a infecção inicial, contribuindo para o desenvolvimento de doenças crônicas, incluindo alterações cognitivas semelhantes às observadas no Alzheimer.
O professor Sean Clouston, coautor do estudo, reforça que esses achados sugerem que a Covid longa pode não ser uma condição estática. Ao contrário, ela pode evoluir com o tempo, agravando sintomas neurológicos e cognitivos em parte dos pacientes.
Limitações e cautela na interpretação
Todos os participantes do estudo faziam parte do programa de acompanhamento de saúde dos socorristas do World Trade Center, um grupo com exposição ambiental elevada ao longo da vida. Por esse motivo, os pesquisadores alertam que os resultados não devem ser automaticamente generalizados para toda a população.
Ainda assim, os dados reforçam a necessidade de vigilância clínica e acompanhamento de longo prazo em pessoas com sintomas persistentes após a Covid-19.
O que é Covid longa
De acordo com o NHS, a Covid longa é caracterizada pela persistência de sintomas por mais de 12 semanas após a infecção inicial. Entre esses sintomas estão fadiga, dificuldade de concentração, lapsos de memória, alterações de humor e sensação de “névoa mental”.
Um alerta para a saúde cerebral
Este estudo não afirma que a Covid longa cause Alzheimer. No entanto, ele aponta para um possível caminho biológico compartilhado, envolvendo inflamação, dano neuronal e acúmulo de proteínas tóxicas no cérebro.
Esses achados reforçam a importância de olhar para a Covid não apenas como uma infecção respiratória aguda, mas como um evento potencialmente sistêmico, com repercussões prolongadas na saúde cerebral.
Compreender esses mecanismos é fundamental para desenvolver estratégias de prevenção, acompanhamento e cuidado, especialmente em um cenário em que milhões de pessoas em todo o mundo já tiveram contato com o vírus.
Cuidar do cérebro começa antes da doença se instalar e passa por atenção aos sinais silenciosos que o corpo pode estar emitindo ao longo do tempo.
Referências
Stony Brook University. Study on tau protein levels in long-Covid patients.
eBioMedicine, 2025.
National Health Service (NHS). Long Covid overview and diagnostic criteria.